Texto de Katia Canton sobre Claudio Castelo


Apresentação para exposição ocorrida na Galeria SESC Av. Paulista (São Paulo)

                    Claudio Castelo

 

                   Poses Humanas

 

                            por Katia Canton*

 

A pintura está viva. E, neste final de século e milênio, a figuração torna-se um dos instrumentos fundamentais para ancorar o senso de representação e sentido, almejado e retrabalhado por uma nova geração de artistas.

 

 Na verdade, esse fenômeno se inicia notadamente, no cenário internacional, nos anos 80, reagindo a extremos cometidos por projetos modernistas. Alistando a arte a uma missão de transcendência, o modernismo muitas vezes empurrou-a rumo a limites experimentais de abstração, monocromia e síntese extrema; abdicou da tela e da escultura para substituí-las por suportes não comerciáveis, efêmeros, híbridos e, assim, tornou a arte cada vez mais hermética aos olhos de um público não iniciado.

 

Eis que nos anos 80, considerados como anos de uma era yuppie, artistas desejam uma reaproximação com o público, com o mercado, com a mídia. Um panorama marcado pelas inseguranças geradas pela AIDS e outras doenças infecto-contagiosas, pela queda do comunismo e pelas novas guerras étnicas, pelas redemarcações da geografia mundial e pela crise econômica globalizada, também impingem uma nova atitude diante da arte e da vida.

 

 A retomada da pintura, da figuração, da narrativa, assim como da busca de significado, expressão e conteúdo na representação artística são exemplos dessa postura.  Daqui saem nomes como o do norte-americano David Salle, o do italiano Francesco Clemente, representante da transvanguarda italiana, assim como o do alemão Anselm Kiefer. No Brasil, a geração 80 brilha com vigor numa redescoberta da pintura e da expressão. Nos anos 90, essa tendência toma corpo e se reafirma na obra de jovens pintores como a norte-americana Elizabeth Peyton.

 

 Claudio Castelo pertence a esse contexto da história. Profissionalmente, ele começou seu percurso na arte no início da década de 80, ironicamente após ter abandonado a faculdade de artes plásticas.

 

 Que fique claro que o compromisso de Castelo não é com a experiência da arte per se, mas sim com a possibilidade de utilização dela como forma exuberante de representação dos tons e matizes que compõem a complexa natureza humana. Em seu trabalho, a exploração do traço no desenho rápido e nervoso e de uma variante de técnicas pictóricas é para ele um exercício de encontros e desencontros com homens e mulheres.

 

 Psicanalista atuante, Castelo constrói seus retratos como cenários para revelar máscaras e eventualmente, através de pequenos e sutis detalhes, sugerir entranhas que emergem de dentro das pessoas. O artista exibe personagens à procura de cores, formas, texturas e contornos que os possam definir.

 

Dessa busca, as pinturas do artista tornam-se lente fotográficas contaminadas com uma idéia fixa ou uma sensibilidade específica: materializar o aspecto mais mundano do ser humano, acusar um olhar narcisista, revelar poses, apontar para os artifícios e os jogos de sedução que costumamos jogar socialmente.

 

Nesse momento, os pincéis do artista parecem travestir-se com o foco das câmeras dos paparazzi.

 

 Mas o interesse de Claudio Castelo não são as celebridades. O artista, com sua alma psicanalítica e sua postura de inveterado observador ao gosto proustiano, olha para o passado e para o presente em busca de um tempo imaginário, em que pessoas comuns que se reinventam com glamour forjado, cheio de cores.

 

A essas pessoas, o artista oferece um fundo vermelho, verde ou azul, uma composição dramática—possibilidade de teatralização que os resgataria de um tedioso anonimato.

 

Nesse novo jogo, jogo da arte, entram em cena recursos emprestados de uma formação cinematográfica. Claudio Castelo estudou cinema e dele capta um senso de enquadramento, de cor e de gestualidade que aproxima suas telas de takes de filmes. Às vezes lembram Visconti. Mas a intensidade que o artista imprime aos fundos de suas pinturas, invariavelmente recobertos por uma única cor que os carimba com dramaticidade,  podem lembrar Fellini. Particularmente, uma obra em que mulheres carregadas de maquiagem se enquadram sobre um pano de fundo vermelho sangue traz aos sentidos um certo gosto de Julieta dos Espíritos.    

 

 Claudio Castelo não é um artista irônico. Ao contrário, o drama, as poses e o frisson com que recheia seus personagens são plenos de humanismo, de cumplicidade e de compaixão pelas pessoas. Com seus pequenos fingimentos sublinhados, a pintura se enche de verdade.

 

*Katia Canton é PhD em crítica de arte pela Universidade de Nova York. É docente e curadora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

 

 

 

 

 



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